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Conversa sobre precatórios com o camarada Vladímir Maiakóvski

Diógenes de Brito Tavares | 05/09/2017

Palavras-chaves: Estado, fiscal de rendas, ordem cronologica, precatório

Advogado integrante da Harada Advogados Associados

 

 

Camarada Maiakóvski, permita-me apresentar:

sou cidadão brasileiro e preciso lhe falar!

Minha forma não é cubista, nunca fui a Moscou;

apologético czarista, folga-te que não sou.

Só o que necessitas saber é o que lhe vou adiantar:

sou um infeliz credor de precatório alimentar.

Não furto linhas alheias, não cometo peculato;

nada devo a credores, muito mo deve o Estado.

Se te foras dura a resenha com o cidadão fiscal de rendas,[2]

pena causar-te-á ouvir de precatórios e gregas calendas.

Imagina-te numa fila, com uma senha na mão;

no papel está escrito: “Devo, não lho nego não.”

Gritam, lá pra frente: “Receberão todos, segundo ordem cronológica!”

Lá pra trás murmuram: “Matar-te-á a espera, na fila teratológica…”.

Com um decênio de atraso chego, então, à fila inglória.

Café e rosquinhas me oferecem, em troca de moratória.

Um pregoeiro me aborda, propondo-me um leilão:

“Negociando braços e pernas, pagam-te de antemão”.

Decanta-me outro, aos ouvidos, direta negociação:

“O Leviatã te receberá em pessoa, cidadão;

uma pouca de dignidade sua inclusa na alienação,

acerta-se um deságio médio e está garantido o pão.

Mete-se logo, obreiro amigo, nesse excreto de acordo direto,

ou aguarda que te venha aqui buscar algum seu tataraneto”.

Confesso-te: esmoreceram aqui minhas pernas, camarada;

acabou-se o café, as rosquinhas, a fila andou minguada.

Enquanto ao lado cogitavam um remendo constitucional,

riam-se, na choldra, os juros, superando o principal.

Quem pagará por isso, senão o combalido Estado?

Mas este não sou eu, você, o empregador e o proletariado?

Precatório, eu, uma vela acenderei, num pires de louça crestado.

Congelará antes a vodca, camarada, de o precatório ser quitado?

 

SP, agosto de 2017.

 

[1] Vladímir Maiakóvski (1893-1930), como escreveu Haroldo de Campos, “é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam” (Maiakóvski. Poemas. 7. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006). Coincidentemente, neste 2017, completa 100 anos a conhecida Revolução Russa.

[2] Em 1926, Maiakóvski escreveu o poema “Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas”, no qual aborda o papel do poeta na sociedade proletária e questiona a exação fiscal que se impunha então à atividade literária. Dentre outras coisas, a poesia e sua matéria-prima (a “palavra-prima”) não poderiam ser equiparadas a outras matérias e mercadorias objeto da tributação estatal.

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