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Dois povos e uma cultura – juntos na construção de um legado

admin | 11/12/2018

Palavras-chaves: comunidade Nikkei, Imigração japonesa, kasato maru, preconceito, xogunto

por Alexandre Yamasaki Kawace

 

SUMÁRIO

Antecedentes no Japão. 3

Antecedentes no Brasil 4

O início da imigração japonesa para o Brasil 5

As fases da imigração japonesa no Brasil 6

Construção de uma reputação exemplar no Brasil 8

As japonesidades e os novos nikkeis. 10

Em busca do legado para as próximas gerações. 12

As associações nipo-brasileiras como instrumento de transformação social 14

Consequências do movimento dekassegui 18

Cooperação para o desenvolvimento social e econômico brasileiro. 20

 

INTRODUÇÃO

 

No ano de celebração dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, a visita da Sua Alteza Imperial Princesa Mako demonstra a importância que a comunidade nikkei do país representa para o Japão. Isso é reforçado pelo discurso proferido pelo Primeiro Ministro do Japão, Shinzo Abe, na ocasião de sua visita a São Paulo, em 2014, quando revelou os três princípios da política japonesa para a América Latina e Caribe: “progredir juntos”, “liderar juntos” e “inspirar juntos”.

Os debates e indagações a respeito do futuro da comunidade nikkei no Brasil são recorrentes e, geralmente, têm como abrangência os aspectos micro (a sobrevivência das instituições, entidades, associações etc.) e macro (a manutenção da cultura em território brasileiro) da comunidade. E delas se derivam muitas ações, mas também muitas incertezas.

Há uma corrente que alerta sobre um enfraquecimento da comunidade, baseada na falta de renovação de pessoas nas instituições nikkeis e da expressão cada vez menor da cultura tradicional japonesa. E, há a corrente que realça a crescente presença e influência da cultura japonesa em sua forma mais moderna dentre os descendentes e os não-descendentes.

Ao nos debruçarmos sobre as causas e consequências da imigração japonesa no Brasil, temos a oportunidade de revisitar o passado, entender a jornada que nos trouxe até o presente  e projetar possíveis caminhos para o futuro da comunidade nikkei, tendo como ponto de partida a indelével obra deixada pelas primeiras gerações de imigrantes e descendentes de japoneses.

A parte I deste trabalho expõe os fatos históricos mais relevantes que explicam as causas da imigração japonesa no Brasil. Dentro de um recorte de tempo que consideramos pertinente, destacaremos as condições que propiciaram a vinda dos pioneiros ao Brasil.

A parte II relata influências, impactos e resultados deixados pela imigração japonesa no Brasil. Algumas obras, como O Nikkei no Brasil[1] e Centenário: Contribuição da Imigração Japonesa para o Brasil Moderno e Multicultural[2], já cumpriram o valoroso papel de consolidar e expor as principais consequências. Portanto, explorá-las com detalhes neste trabalho, poderá soar repetitivo. Pretendemos deixar algumas contribuições com ideias e pontos de vista próprios para instigar novos estudos e debates e estimular possibilidades para o desenvolvimento da comunidade nikkei e da cultura japonesa no Brasil.

 

PARTE I – CAUSAS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

 

Antecedentes no Japão

 

O período do Xogunato Tokugawa (1603-1867), conhecido como Era Edo, precede o início da emigração japonesa para o mundo. Nessa época, o Japão optou pelo isolamento comercial e cultural do mundo exterior para se desenvolver sem o peso da influência ocidental e consolidar o processo de unificação do país com a centralização do poder na figura do xogum. No final do século XVIII e início do XIX, os japoneses passaram a enfrentar fortes pressões das potências ocidentais para que se abrissem novamente ao comércio internacional (MORI e GLAUJOR, 2008, p. 24-29).

Duas investidas do Comodoro americano Mathew Perry, em 1853 e 1854, exigindo o estabelecimento de um tratado de relações comerciais entre o Japão e os Estados Unidos, fizeram com que o Japão cedesse às pressões e ameaças de um ataque militar, culminando com a abertura dos portos de Shimoda e Hakodate (YAMAMURA, 1996, p. 128-129).

A partir daí, ocorre um gradativo enfraquecimento do xogunato, até que, em 1868, chega ao fim o domínio Tokugawa, e tem início a Era Meiji (YAMAMURA, 1996, p. 130-132).

Inicia-se um período de modernização do Japão, com grandes transformações. O país rural e feudal passou para uma estrutura urbana e industrial. Surgiram problemas de êxodo rural, superpopulação nas cidades, miséria urbana, desemprego e escassez de alimentos. O problema da superpopulação tornou-se um dos principais dilemas para o governo japonês, que viu na emigração uma das soluções para promover o controle demográfico (SAKURAI e COELHO, 2008, p. 16; YAMAMURA, 1996, p. 137).

A primeira saída de emigrantes japoneses deu-se em 1868, quando quarenta e oito rapazes partiram para a ilha alemã de Guam e cento e cinquenta e três pessoas para o Havaí. Boa parte desses emigrantes retornou ao Japão por causa das condições precárias de trabalho e aos maus-tratos sofridos, levando o governo japonês a cessar novas saídas de emigrantes. Em 1884, o Japão e o Havaí assinaram um tratado de navegação e no ano seguinte retomaram a emigração (NOGUEIRA, 1984, p. 37-39).

Com a anexação do Havaí aos Estados Unidos, em 1900, abriu-se uma porta de entrada para a América do Norte, intensificando o fluxo migratório de japoneses para os países desse continente. Dotados de forte espírito competitivo, eles dedicavam-se com sacrifício a qualquer atividade que surgisse, causando a redução dos salários. Frequentemente furavam greves e estavam sempre dispostos a fazer horas extras. Esse comportamento gerou descontentamento dos cidadãos americanos e despertou um sentimento antinipônico, culminando com um decreto do presidente Theodore Roosevelt proibindo a reemigração dos japoneses procedentes do Havaí, Canadá e México (UEHARA, 2008, p. 13-14).

Em 1908, entrou em vigor um tratado entre Estados Unidos e Japão denominado Gentleman’s Agreement, em que o país asiático se comprometia a não mais conceder licenças de saída de seus trabalhadores para o país americano (NOGUEIRA, 1984, p. 40).

Seguindo a mesma política americana, muitos países também restringiram a entrada de japoneses, o que tornou a América Latina uma alternativa de destino para eles. Além de ajudarem na solução do controle demográfico, os países da América Latina representariam novos mercados consumidores para os produtos japoneses (MAKINO, 2010, p. 15-17).

Interessante notar que, a América Latina inicialmente estava em segundo plano na questão da emigração japonesa, e nos dias de hoje abriga o maior contingente de descendentes de japoneses do mundo, tornando-se uma região estratégica para o Japão, conforme discurso do primeiro- ministro japonês, Shinzo Abe (ABE, 2014).

 

Antecedentes no Brasil

 

Dentro do contexto da imigração japonesa no Brasil, é relevante entender o contexto histórico do país a partir do século XIX. Nessa época, a produção cafeeira começava a ganhar destaque na economia do país, em substituição à cana-de-açúcar, ao algodão e ao ouro, que tiveram o auge de seus ciclos em décadas anteriores.

Inicialmente, a região  mais produtiva era o Vale do Paraíba. À medida que suas terras férteis foram se esgotando, a produção proliferou para outras regiões, em especial o oeste do Estado de São Paulo, onde se desenvolveram enormes fazendas de café. Estradas de ferro foram construídas para escoar a produção para o porto de Santos, que no fim do século XIX tornou-se o mais importante centro exportador de café do mundo (BAER, 2002, p. 39).

A produção de café era pouco mecanizada e dependente da mão-de-obra de escravos africanos. Ao mesmo tempo que a cultura de café despontava na economia brasileira, cresciam na Europa as discussões em repúdio à escravidão africana. A Inglaterra liderava um movimento mundial de extinção do tráfico negreiro transatlântico, que veio a ser decretado oficialmente no Brasil em 1850. Posteriormente, surgiram movimentos abolicionistas que reduziram gradativamente a disponibilidade de escravos, culminando com a Lei Áurea em 1888, que aboliu a escravidão definitivamente (GRINBERG e SALLES, 2009, p. 214-230).

Diante desse cenário, e já sentindo a escassez de braços para suprir o trabalho nas lavouras, os fazendeiros de algumas regiões começaram a recorrer aos trabalhadores livres. Porém, os fazendeiros consideravam o trabalhador livre nacional pouco produtivo e arredio ao trabalho. Assim, os imigrantes representavam a solução para esse entrave. Juntamente com uma demanda do governo de povoar o país, criaram-se as condições para a entrada de imigrantes no Brasil (COSTA, 1998, p. 109-115).

Inicialmente, emigraram para o país colonos portugueses, suíços e alemães. Devido às condições de trabalho que lhes eram oferecidas, esses colonos se sentiam espoliados e reduzidos à condição de escravos. Essa situação dos imigrantes no Brasil repercutiu em países como a França e Itália, que alertaram seus cidadãos para que não emigrassem para o Brasil, sob o risco de se exporem a situação de miséria (COSTA, 1998, p. 109-170).

Em determinada época cogitou-se a introdução de imigrantes chineses, que foi rechaçada, pois iria contra a ideologia de branqueamento da população (COSTA, 1998, p. 184).

Devido à dificuldade em atrair o “imigrante ideal”, o governo brasileiro utilizou-se amplamente da prática de subsídios para trazer novos imigrantes. Tal medida promoveu a imigração maciça de italianos no período entre 1870 e 1902. Em 1902, a repercussão de notícias de maus tratos aos seus trabalhadores fez com que a Itália emitisse o Decreto Prinetti, proibindo a emigração subsidiada de italianos para o Brasil. Na mesma esteira, Portugal e Espanha decretaram restrições às emigrações para o país (MAKINO, 2010, p. 33).

Neste contexto, surgiram pressões por parte dos fazendeiros para considerar os japoneses como alternativa de mão de obra. A abolição de um decreto que proibia a entrada de asiáticos abriu caminho para a imigração japonesa no Brasil (NOGUEIRA, 1984, p. 81-83).

 

O início da imigração japonesa para o Brasil

 

O período compreendido entre o final do século XIX e início do século XX teve um intenso movimento migratório internacional. Estima-se que entre 70 milhões e 75 milhões de pessoas tenham se transferido para outros países nessa época (UEHARA, 2008, p. 10).

Muitos estudiosos explicam esse movimento por meio dos conceitos de push-pull factors (fatores de atração e repulsão). Exemplos de fatores de atração seriam a oferta de empregos, salários melhores, condições melhores de ascensão social etc.. Exemplos de fatores de repulsão seriam as pressões demográficas, as crises econômicas graves, as catástrofes climáticas, a perseguição política ou religiosa etc.. Analisando os antecedentes descritos anteriormente, percebe-se que há uma conjugação de push-pull factors, indicando as condições favoráveis para o fluxo migratório do Brasil para o Japão (MAKINO, 2010, p. 8).

Contudo, havia a necessidade de estabelecerem relações diplomáticas para possibilitar a celebração de contratos entre brasileiros e japoneses, tanto para a imigração, quanto para outros fins.Tal questão foi resolvida em novembro de 1895,em Paris, quando Brasil e Japão assinaram o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação (MAKINO, 2010, p. 9).

Em 1907, a Companhia Imperial de Navegação, empresa dirigida por Ryo Mizuno, que cuidava do recrutamento de trabalhadores para as fazendas paulistas de café, firmou contrato com o governo paulista para início do processo de imigração de japoneses ao Brasil. Fazia parte do acordo um convênio que visava fazer propaganda do café no Japão. A Companhia Imperial de Navegação deveria transportar em seus navios, na volta para o Japão, sacas de café para a divulgação do produto no Oriente (NOGUEIRA, 1984, p. 97).

Por esse contrato, estipulou-se que seriam introduzidos, inicialmente, três mil agricultores, em levas não superiores a mil  pessoas. Os imigrantes deveriam vir em famílias de, pelo menos, três pessoas (“três enxadas”), com idade entre 12 e 45 anos, e aptas ao trabalho. Não houve restrição à vinda de outros membros da família fora desses requisitos. Em número não superior a 5% do total, poderiam vir pedreiros, carpinteiros e ferreiros.

Assim, a imigração japonesa no Brasil começa oficialmente em 18 de junho de 1908, data em que atracava no porto de Santos o vapor Kasato Maru, trazendo 781 imigrantes nipônicos originários das províncias de Okinawa, Kagoshima, Fukushima, Hiroshima, Kumamoto, Ehime, Yamaguchi, Miyagui, Niigata e Tóquio (TAKEUCHI, 2008, p. 17).

 

As fases da imigração japonesa no Brasil

 

A história da imigração japonesa no Brasil pode ser dividida em três fases.

A primeira fase vai de 1908 até 1924, e é caracterizada como uma imigração subsidiada, subvencionada pelo Estado de São Paulo. Houve interrupção da subvenção em 1914devido à baixa fixação dos colonos japoneses nas fazendas e ao alto custo do transporte dos imigrantes japoneses. Ao mesmo tempo, crescia a entrada de imigrantes europeus, que ainda eram os preferidos por causa de suas afinidades raciais e culturais. Em 1917, o fluxo migratório de europeus voltou a diminuir em função da Primeira Guerra Mundial, e a imigração japonesa foi retomada até 1922, quando o subsídio foi suspenso definitivamente.Nessa primeira fase entraram no Brasil mais de 31 mil imigrantes, o que representa cerca de 13% do afluxo total de japoneses ao Brasil (SUZUKI, 1995, p. 58; TAKEUCHI, 2008, p. 22).

A segunda fase vai de 1924 a 1941, e é caracterizada como uma imigração tutelada[3],subsidiada pelo governo japonês.Nesse período, o governo investiu nas companhias de emigração a fim de que pudessem adquirir terras no Brasil e instalar as benfeitorias necessárias para a fixação dos colonos no país. Nesse período surgem empresas como a Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha[4] (Companhia Ultramarina de Empreendimentos), conhecida como K.K.K.K., e a Brasil Takushoku Kumiai[5] (Sociedade Colonizadora do Brasil), conhecida como BRATAC. Elas permitiram o acesso dos imigrantes japoneses a lotes de terra no Brasil e a criação de colônias japonesas. Nenhum outro governo financiou a imigração e fixação de seus cidadãos para o Brasil como o Japão, o que diferencia a imigração japonesa  das de outras nações (MAKINO, 2010, p. 49; SUZUKI, 1995, p. 58; TAKEUCHI, 2008, p. 175).

Com a adoção do sistema de quotas na Constituição de 1934[6], a entrada dos japoneses foi diminuindo até cessar completamente em 1941, em consequência da Segunda Guerra Mundial. Nessa segunda fase entraram no Brasil mais de 158 mil imigrantes, o que representa cerca de 67% do afluxo total de japoneses ao Brasil (SUZUKI, 1995, p. 58).

A terceira fase teve início em 1952, após a Segunda Guerra Mundial, e vai até a década de 70, quando o fluxo imigratório é praticamente cessado. Ela é caracterizada como uma imigração tutelada e dirigida[7], pois ainda era financiada pelo governo japonês, mas com o fluxo direcionado pelo governo brasileiro para atender a demandas específicas de colonização. Há uma mudança no perfil dos imigrantes, pois parte deles vai para o Brasil para ocupações urbanas, diferentemente das fases anteriores que eram predominantemente rurais. Nessa fase, entraram no Brasil mais de 46 mil imigrantes, o que representa cerca de 20% do afluxo total de japoneses ao Brasil (MAKINO, 2010, p. 61; SAKURAI, 2004, p. 9-12; SUZUKI, 1995, p. 58).

 

PARTE II – CONSEQUÊNCIAS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

 

Construção de uma reputação exemplar no Brasil

 

Antes da partida do navio Kasato Maru para o Brasil, o deputado japonês Gonta Doi proferiu as seguintes palavras aos emigrantes japoneses:

 

“Vocês estão indo para outro país e não devem esquecer que cada um representa o Japão. É necessário que todos se encarreguem de não manchar a honra japonesa e o nome de sua pátria. Se não forem capazes de viver condignamente, não pensem em voltar. Tenham vergonha disso e morram por lá” (SPINELLI, 2008, p. 20).

 

Dessa forma, esses emigrantes levavam para o Brasil não apenas as expectativas de obterem uma vida melhor, mas também a responsabilidade de zelar pela imagem e honra de sua pátria. Curioso notar que, até os dias de hoje, esse tom de discurso é expresso por pais e avós da geração de imigrantes e primeiros descendentes, preocupados com o zelo pelo nome da família e pela própria reputação de sua origem nipônica.

Os japoneses chegaram ao Brasil em meio a um clima de preconceito, pois eram vistos como ameaça à política de branqueamento da população, que visava o desenvolvimento nacional. Eram tidos como inassimiláveis, eugenicamente inferiores e produtores de pobreza nos países que os recebiam (TAKEUCHI, 2008, p. 174).

Apesar do ambiente hostil que os aguardavam, houve uma boa impressão no primeiro contato. Amândio Sobral, inspetor de imigrantes da cidade, relatou uma imagem positiva dos imigrantes japoneses no desembarque deles na Hospedaria dos Imigrantes, descrevendo-os como limpos, asseados, dóceis e ordeiros (IKEDO, 2008, p. 30; SPINELLI, 2008, p. 21).

A vida dos imigrantes teve início na zona rural. Com o passar dos anos, a presença dos descendentes de japoneses passou a ser predominantemente urbana, mas há muitas famílias que até hoje permanecem na agricultura.

A agricultura é uma área com notáveis contribuições dos japoneses. Quando os pioneiros chegaram, a base da alimentação no país era arroz, feijão, carne-seca e farinha de mandioca. Para manter seus hábitos alimentares, as famílias passaram a cultivar pequenas hortas com suas próprias mudas e sementes trazidas do Japão, visando o consumo próprio. Posteriormente, a produção passou a ser comercial, causando mudanças nos hábitos brasileiros e introduzindo a prática da hortifruticultura em diversos estados, de norte a sul do país.Foram firmados diversos acordos de cooperação e financiamento entre o Brasil e o Japão,e podemos citar o programa Prodecer[8]como um dos principais casos de sucesso (LOURENÇÃO, 2015, p. 180-200).

Muitas famílias não suportaram o duro trabalho nos cafezais e fugiram das fazendas rumo a outras regiões do Estado de São Paulo e do norte do Paraná, além da cidade de São Paulo. Começaram uma jornada de distribuição territorial e a busca da ascensão social (IKEDO, 2008, p. 33).

Em comparação com outros grupos de imigrantes, os japoneses redefiniram sua posição social através de uma trajetória socioeconômica que pode ser considerada ágil. Mais de 50% das famílias japonesas passou da condição de colono para a de proprietário em um prazo inferior a 5 anos (CARDOSO, 1995, p. 57; PEREIRA, 2000, p. 16).

Nessa jornada para outras regiões, os imigrantes japoneses deixaram um importante legado no desenvolvimento territorial brasileiro: trabalharam como operários na construção de estradas de ferro, como a Noroeste (que liga Bauru/SP a Corumbá/MS); desbravaram terras virgens e estabeleceram colônias nipônicas, sendo que algumas delas se transformaram em municípios que ainda hoje preservam as identidades e raízes da cultura japonesa. É o caso de Bastos/SP, Registro/SP, Pereira Barreto/SP, Assaí/PR e Uraí/PR.

Ao relembrar da história da imigração, na parte I deste trabalho, vimos que os países europeus cessavam a emigração de seus cidadãos ao primeiro sinal de dificuldade em terras brasileiras; por outro lado, o Japão persistiu e até assumiu a responsabilidade pelo processo de emigração, investindo na aquisição de terras para seus colonos. É um mero detalhe que demonstra o espírito de determinação e de união típico dos japoneses.

Com o tempo, as migrações urbanas se ampliaram, por causa da oportunidade de os filhos nisseis estudarem e atingirem maior status social.Várias cidades receberam esses imigrantes, mas o ícone da ocupação urbana japonesa é o bairro da Liberdade, em São Paulo.Nas cidades eles constituíram comércios, restaurantes e tinturaria ou empregaram-se como carpinteiros, pintores, trabalhos domésticos, barbearia etc. (CARDOSO, 1995, p. 157; HANDA, 1987, p. 151-197; HARADA, 2013, p. 151-160).

Na Segunda Guerra Mundial os imigrantes japoneses passaram a ser vistos oficialmente como inimigos em território brasileiro. Foi um período em que sofreram forte repressão, desapropriação de bens e opressão cultural (TAKEUCHI, 2008, p. 70-76).

Com o ingresso dos descendentes de japoneses no ensino superior, a ascensão social se acelerou e, em questão de poucos anos, passaram a ocupar cargos de alto escalão nas esferas públicas e privadas, resultando em maior nível educacional e econômico. Há indicadores do IBGE e do IPEA que comprovam que, dentre as etnias reconhecidas no Brasil, os nikkeis apresentam maior contingente no ensino superior, maior IDH e maior poder aquisitivo (HARADA, 2013, p. 75-76).

É inegável que os descendentes de japoneses conquistaram destaque na sociedade brasileira, diferenciando-se por algumas características que, comumente, lhe são associadas, como honestidade, respeito, disciplina, integridade, inteligência e determinação. Curioso pensar que, inicialmente, os brasileiros não queriam os japoneses em seu território porque eram diferentes; agora os japoneses se destacam na sociedade brasileira porque são diferentes.

O saudoso deputado japonês Gonta Doi ficaria muito orgulhoso em ver que os seus patrícios honraram as suas orientações.

 

As japonesidades e os novos nikkeis

 

Uma consequência advinda da integração dos imigrantes japoneses e seus descendentes à sociedade brasileira é a adoção da cultura japonesa no país, cujas influências podemos perceber no dia adia de formas variadas e em diversas áreas.

Por ser exótica para os padrões brasileiros, a prática de algo originário da cultura japonesa faz com que o indivíduo se “torne um japonês” ou se “sinta um japonês”. Alguns pesquisadores têm propagado o termo japonesidade para denominar as diversas possibilidades de qualquer indivíduo se “tornar japonês”. Interessante notar que as japonesidades podem até tornar possível que um não-descendente seja “mais japonês” do que um descendente de japoneses[9]. Com a adesão cada vez maior de não-descendentes às japonesidades, estamos vendo surgir uma “Comunidade Nipo-Brasileira Ampliada” (MACHADO, 2011; PRATA, 2010, p. 12).

As japonesidades são bem variadas e dispersas. Apenas para citar alguns exemplos, pode ser por meio da prática do kendô em academias ou associações; ou por meio da adoção do sobá como prato típico regional, como ocorreu em Campo Grande/MS; ou por meio do consumo regular de mangás  (MACHADO, 2011).

Pensando no conceito de grupos, onde os membros de um grupo possuem alguma afinidade ou gosto em comum, cada japonesidade produziria um grupo diferente. Com base nos exemplos acima, três grupos distintos seriam formados[10], o grupo do kendô, o grupo do sobá e o grupo dos mangás, de forma desconectada, pelo fato de representarem gostos distintos.

No fundo, esses grupos têm um ponto de conexão que é o fato de serem japonesidades. Assim, nos parece que falta uma denominação que identifique explicitamente a ligação desses indivíduos, adeptos de alguma japonesidade, com a cultura japonesa, para criar o sentimento de pertencimento deles com relação ao grupo da “Comunidade Nipo-Brasileira Ampliada”.

Há quem diga que o termo nikkei[11]poderia ser ressignificado para abranger os descendentes de japoneses e os não-descendentes adeptos da cultura japonesa. Porém, o termo nikkei parece ter uma forte ligação com o fato de o indivíduo ter ascendência japonesa, criando um obstáculo à inserção de “novos nikkeis” que não dispõem desse atributo.

Talvez, seja o caso de se criar uma denominação que sirva para identificar o grupo formado por todos os indivíduos engajados com alguma japonesidade, sendo ou não descendentes de japoneses. Uma denominação que não crie fronteiras rígidas ou restrinja o acesso das pessoas a esse grupo, e que consiga acolher facilmente novos indivíduos que queiram fazer parte dele. Que não rotule ou se aproprie da identidade do indivíduo, mas que seja apenas um dos aspectos de sua individualidade.

Refletindo sobre isso, ousamos sugerir o termo “newkei”[12] para cumprir essa finalidade. Trata-se de um termo que tem uma certa sonoridade, é de simples pronúncia e guarda relação semântica com “novo nikkei” – newkei = new nikkei = novo nikkei -, além de uma similaridade fonética com nikkei.  Além disso, produziria um sentimento de unidade em torno dos adeptos da cultura japonesa.

Assim, cria-se uma marca para identificar o grupo de todos os adeptos da cultura japonesa, cuja única condição de entrada é o engajamento do indivíduo com alguma japonesidade. Indo além, podemos associar o “newkei” a uma causa, propósito ou missão, que é o de manter viva a cultura japonesa no Brasil.

Feitas as devidas apresentações, a partir deste ponto, utilizaremos os termos japonesidade e newkei em outros trechos do trabalho.

 

Em busca do legado para as próximas gerações

 

Quando chegaram ao Brasil, uma das preocupações dos imigrantes era o risco de abrasileiramento de seus filhos e o desaparecimento das tradições (HATUGAI, 2011, p. 32).

Depois de 110 anos, os nikkeis adotaram costumes típicos do Brasil, mas sem deixar de lado os costumes dos antepassados. A cultura japonesa se popularizou no Brasil entre os não-descendentes, fazendo surgir as japonesidades, assunto explanado anteriormente.

Trata-se de um processo normal e esperado, e pode ser explicado pelos conceitos de assimilação étnica. Segundo Truzzi (2012, p. 524), indivíduos expostos a culturas distintas tendem a sofrer mudança na personalidade, em maior ou menor grau, a depender da distância cultural e frequência de contato. Diz, ainda, que essa mudança pode ser bilateral, tanto na sociedade inclusiva (neste caso, a brasileira), quanto no grupo minoritário (japoneses).

Há na comunidade nikkei, especialmente entre os veteranos, um sentimento de desaparecimento da cultura japonesa, talvez a mesma preocupação sentida pelos pioneiros.

Isso tem gerado discussões sobre a necessidade de se deixar um legado nikkei para as próximas gerações. Cabem aqui algumas questões importantes:

  1. O que seria exatamente essa “cultura japonesa” que está desaparecendo? Seria aquela trazida pelos primeiros imigrantes?
  2. Em caso positivo, essa cultura ainda existe no Japão para termos o direito de denominá-la de cultura japonesa?
  3. Assumindo que seja a cultura trazida pelos pioneiros, e que parte dela já não exista no Japão, por qual motivo queremos mantê-la aqui no Brasil?

Acreditamos que as reflexões em torno dessas questões (e outras que certamente podem surgir) tragam um pouco mais de clareza em relação ao esforço que se quer empreender em torno da cultura japonesa, que vamos chamar a partir daqui de cultura nipo-brasileira[13].

Posto isso, fica a questão de qual é o legado nipo-brasileiro que se pretende deixar para as próximas gerações. Pensar na cultura nipo-brasileira como um legado parece ser algo inatingível. Primeiro, porque a cultura é um sistema complexo de ser representado, quanto mais de ser transmitido. Segundo, porque a cultura é mutável com o tempo, e quando a próxima geração chegar, talvez se torne anacrônica.

No entanto, há um componente da cultura que tem a tendência de se manter intacto, além de permitir algumas formas de representação: o conjunto de valores. Acreditamos que a transmissão dos valores nipo-brasileiros é uma das formas de se transmitir o legado nipo-brasileiro.

Uma referência para nortear esta questão é a comunidade nikkei do Havaí, que este ano celebra 150 anos de imigração japonesa. Naquele país, os descendentes de japoneses estão na 8a geração, e o fenótipo deles já não é mais o de um japonês típico. Porém, ainda hoje, eles reverenciam seus antepassados e preservam seus valores, os quais estão cravados em doze pilares de pedra no Centro Cultural Japonês do Havaí para serem lembrados e difundidos (JCCH Historical Gallery, 2018).

Conjecturamos que algo similar poderia ser construído no Brasil; não necessariamente a representação na forma de pilares de pedra, mas ao menos trazer à tona os valores nipo-brasileiros. Sabemos que eles existem e residem no âmago daqueles que a praticam, de forma tácita, mas talvez não tenhamos a devida clareza e consciência de quais são eles.

Ao trazermos para o consciente e escrevermos explicitamente esses valores, estaremos tornando-os passíveis de serem compartilhados com as próximas gerações, quiçá com a sociedade brasileira. Essa pode ser uma inestimável contribuição da comunidade nipo-brasileira para transformar a sociedade brasileira.

 

As associações nipo-brasileiras como instrumento de transformação social

 

As associações nipo-brasileiras[14]surgiram a partir dos núcleos de colonização como espaços de lazer e de convivência social entre as famílias, para o ensino da língua japonesa e a prática de esportes. Devido ao choque cultural entre as culturas brasileira e japonesa e a consequente dificuldade de integração ao seu novo lar, era nesses espaços que os imigrantes podiam fazer amigos, arrumar casamentos, fazer negócios e manter as tradições de sua pátria (SAKURAI, 2007, p. 253-255).

Com o passar dos anos, elas passaram a servir de palco para a difusão da cultura japonesa, introduzindo à sociedade brasileira as suas tradições.

Nas associações, os imigrantes praticavam esportes típicos do Japão que deixaram importantes influências no Brasil. Os principais esportes introduzidos por japoneses no Brasil, e que hoje contam com uma certa popularidade, são judô, karatê, sumô, kendô, gateball e aikidô. O basebol, embora tenha sido introduzido no Brasil por norte-americanos, popularizou-se no país graças aos imigrantes japoneses. É curioso constatar que o esporte em que o Brasil conquistou mais medalhas na história dos Jogos Olímpicos é o judô (COB, 2018; HARADA, 2013, p. 55-56).

Algumas das atividades de entretenimento realizadas eram o karaokê e o bon-odori, esse último geralmente acompanhado do taikô. Todas permanecem vivas nas associações e estão deixando suas influências no Brasil. O karaokê já está consolidado como atividade de diversão e integração dos brasileiros. O bon-odori ainda é praticado na sua forma tradicional, mas ganhou versões modernas para o gosto jovem. O taikô tem encontrado forte adesão dos jovens, contribuindo com a revitalização de algumas associações (PRATA, 2010, p. 124-131).

Atualmente, uma das maiores preocupações das associações é a evasão e a falta de renovação de seus quadros associativos. Muitas delas sofreram baixas significativas em função do movimento dekassegui, e têm enfrentado dificuldades para atrair jovens associados. Já na década de 1970, algumas associações começaram a sofrer estagnação. Nessa época, muitos associados começaram a sair para outras cidades para estudar ou trabalhar. Havia também uma certa falta de interesse pela programação cultural da associação que os levava a frequentar outras opções de diversão da cidade (HATUGAI, 2011, p. 35).

É possível deduzir que, conforme os descendentes de japoneses foram ascendendo socialmente e se integrando na sociedade brasileira, seus círculos sociais transcenderam as fronteiras das associações e surgiram outros compromissos sociais e profissionais que concorrem com as atividades associativas. Diferentemente dos primórdios, quando as associações eram, praticamente, as únicas opções de lazer das famílias e os locais que concentravam todo o seu círculo social.

Com o avançar do século XXI, essa concorrência tornou-se ainda mais desvantajosa, devido ao leque mais extenso de opções sociais e culturais e à maior necessidade de aperfeiçoamento profissional. Além disso, não se pode ignorar as atividades sociais e educacionais dos filhos, que também ocupam parte significativa do tempo dos adultos.

É inegável o protagonismo das associações na difusão e popularização da cultura nipo-brasileira no Brasil. Elas cumpriram muito bem o seu papel nas primeiras décadas da imigração ao servirem como segundo lar para os imigrantes japoneses no seu período de adaptação ao Brasil, atendendo às suas necessidades sociais e culturais da época.

Porém, no contexto atual, é preciso reconhecer que talvez as associações não estejam atendendo plenamente às atuais necessidades dos seus associados, especialmente os mais jovens (para dar uma referência de tempo, podemos considerar aqui os descendentes a partir da terceira geração). Além das necessidades sociais e culturais, podemos incluir até as profissionais. Encontrar um caminho para sua sobrevivência tornou-se o grande desafio.

Apesar de elas guardarem um importante acervo da história da imigração japonesa, e de prestarmos toda a gratidão àqueles que as conceberam e as mantiveram vivas até hoje, talvez tenhamos que mudar a lógica do pensamento. Ao invés de pensarmos em como fazer as associações sobreviverem, colocando-as como o centro da questão, deveríamos adotar o caminho de colocar as pessoas (associados) como o centro da questão. Afinal, diante de um amplo menu de opções, é delas a decisão de frequentar ou não uma associação.

Pensando nesse sentido, de que forma as associações poderiam atender às necessidades atuais das pessoas? Há algumas ideias e possibilidades que poderiam ser aprofundadas.

Partindo-se da premissa de que todas as cidades, bairros ou regiões enfrentam algum problema social, as associações poderiam mobilizar pessoas e promover projetos que contribuam na resolução desses problemas. Assim, elas passariam a desempenhar um papel social relevante dentro da sua comunidade regional.

Uma possibilidade para atrair famílias seria através das crianças. Partindo-se da premissa de que a missão dos pais é educar seus filhos e prepará-los para o mundo, as associações poderiam atuar como parceiras, propiciando, por exemplo, atividades de escotismo, que é um movimento de desenvolvimento de jovens e crianças fundamentado em valores.

O escotismo não tem origem no Japão, mas tem uma importante ligação com a comunidade nikkei, o que é evidenciado pela existência de grandes grupos escoteiros fundados ou frequentados por nikkeis, como o Caramuru, Falcão Peregrino, Hokkaido, Cooper e Nippon.

Em conversas informais com pessoas envolvidas com grupos escoteiros, foi relatada a ocorrência de filas de espera para ingressar em alguns desses grupos, sugerindo a existência de uma demanda não atendida e que poderia ser absorvida pelas associações. Não podemos descartar também a existência de uma demanda oculta formada por pessoas que desconhecem o movimento escoteiro, mas uma vez conhecendo-o, se interessariam em inscrever seus filhos.

As sedes das associações poderiam ser utilizadas também para oferecer palestras, visando o aperfeiçoamento profissional dos associados. Inclusive, parte do conhecimento gerado nesses encontros poderia ser utilizado em prol de melhorias das próprias associações.

Um último apontamento diz respeito à gestão das associações. A maioria das associações, senão todas, dependem do trabalho voluntário e não têm fins lucrativos, sendo importante que haja um modelo de gestão baseado em boas práticas do terceiro setor. Primeiro, que promovam uma gestão participativa que permita a efetiva participação dos associados nas decisões, para que eles também se sintam responsáveis pelo sucesso da associação, e não apenas mão-de-obra. Segundo, que promovam uma gestão transparente com prestação de contas periódica para atrair mais associados e mantenedores.Terceiro, que gradativamente permitam a participação de não-descendentes (com perfil de newkei) em cargos de diretoria, afinal é fundamental que a associação tenha voluntários que se identifiquem com os seus propósitos.

Evidentemente, as associações devem continuar exercendo seu principal papel de difusão da cultura nipo-brasileira. Constatamos a existência de quase 500 associações[15] no Brasil, entre kenjinkais e nihonjinkais. Para efeito de comparação, foi realizada uma pesquisa na internet por associações de outros grupos étnicos que tiveram emigrações em massa para o Brasil: alemães, espanhóis, italianos e portugueses[16]. Não foram encontrados resultados relevantes, o que sugere que essas etnias não contam com atividades associativas ativas, revelando um possível diferencial da comunidade nikkei que deve ser devidamente explorado.

Essa presença física de associações em diferentes localidades é estrategicamente importante, pois para que a cultura nipo-brasileira seja conhecida, lembrada e praticada, ela precisa estar constantemente presente na vida das pessoas. É a mesma estratégia adotada pelas grandes redes de farmácia e de varejo quando abrem novas lojas para marcar presença e conquistar novos consumidores. Se a difusão da cultura nipo-brasileira ficar restrita apenas aos eventos e festivais, aí sim poderá culminar em uma retração.

Portanto, acreditamos que é necessária a manutenção e revitalização das associações nipo-brasileiras. Quiçá, com o engajamento dos newkeis, elas possam se tornar um importante instrumento de transformação social, ao incutir na sociedade brasileira os valores nipo-brasileiros, reforçando uma ideia já mencionada anteriormente neste texto.

 

Consequências do movimento dekassegui

 

O movimento dekassegui registrou dois períodos importantes de fluxo imigratório de brasileiros para o Japão: o primeiro, que teve início na década de 80 até atingir o auge em 2007[17], e o segundo, mais recente, que teve início em 2016[18].

Em ambos os períodos, os push-pull factors foram a falta de mão de obra para o chão de fábrica no Japão, e o quadro de recessão econômica e desemprego no Brasil. Podemos afirmar que esse movimento é mais uma importante consequência da imigração japonesa no Brasil, afinal teve início graças à presença de um grande contingente de emigrantes japoneses na América Latina (cujo maior contingente estava no Brasil)[19].

Posteriormente, com a demanda cada vez mais crescente, foram criadas condições jurídicas que permitiram a concessão de vistos de residência de longo período[20] para filhos e netos de japoneses e seus respectivos cônjuges.

Um dos impactos importantes desse movimento diz respeito aos filhos de dekasseguis, especialmente as crianças pequenas e as nascidas no Japão. Eles não têm uma referência sobre a cultura e o idioma do Brasil, devido à pouca ou nenhuma convivência com o país. Ao mesmo tempo, com a pressão da sociedade japonesa e a convivência diária com japoneses nativos, acabam assumindo os padrões culturais do Japão, porém, sendo reconhecidos como brasileiros. Isso dificulta sua adaptação na volta ao Brasil, onde se sentem estrangeiros, pois representa para eles a chegada em um novo país com uma cultura diferente (COSTA, 2007, p. 142; OKAMOTO, JUSTO e RESSTEL, 2017, p. 210).

A questão educacional é ainda mais grave, por causa das possíveis consequências de longo prazo. Muitas crianças manifestam dificuldade no aprendizado do idioma japonês, não encontram apoio efetivo dos professores, nem dos pais (pois, em geral, estes também sabem muito pouco sobre o idioma e têm pouco tempo livre para dedicar aos filhos) e, consequentemente, não conseguem acompanhar as aulas em escolas japonesas. Uma alternativa seriam as escolas brasileiras no Japão, mas muitas delas não são acessíveis às famílias, por serem onerosas (PRATA, 2010, p. 352-353).

Assim, não frequentam a escola e estão fadadas ao analfabetismo funcional nos idiomas português e japonês, e ao mesmo destino de muitos adolescentes brasileiros que vivem no Japão. Esses, que passaram pelo ciclo de baixa alfabetização, abandonam os estudos e seguem a mesma trajetória de seus pais nas fábricas, sem a perspectiva de alcançar profissões qualificadas. Forma-se um círculo vicioso que se estenderá ao Brasil, caso regresse para o país, onde também encontrará dificuldades profissionais (PRATA, 2010, p. 351-386).

Há ações em andamento por parte dos governos japonês e brasileiro, tanto no Japão, quanto no Brasil, para dar apoio aos jovens dekasseguis e tentar reverter esse quadro. Mas, algumas pesquisas recentes que encontramos sobre os dekasseguis, e que abordam essa questão dos seus filhos, revelaram que ainda falta uma estrutura adequada e maior investimento por parte dos governos, para que eles tenham o devido amparo (NOMISO, 2016, p. 74-75; OKAMOTO, JUSTO e RESSTEL, 2017, p. 216).

Porém, outra pesquisa mostrou uma realidade diferente: filhos de dekasseguis que nasceram no Japão (ou que foram para o país com pouca idade), dominam os idiomas português e japonês, ingressaram na universidade e trabalham em ocupações qualificadas. Além disso, não têm receio ou vergonha de serem brasileiros e, curiosamente, revelaram que isso tem contribuído em suas vidas sociais e profissionais (ISHIKAWA, 2016, p. 18-21).

Presumimos que os seis casos apresentados nessa pesquisa sejam exceção frente ao total de crianças e jovens dekasseguis, mas o fato é que mostraram que, com determinação e apoio dos pais, é possível superar as dificuldades de ser um nikkei no Japão.

Resumindo o perfil desses jovens: nipo-brasileiros, fluentes nos idiomas português e japonês e imersos na cultura japonesa. Suspeitamos que se trate de um perfil com potencial para ajudar na manutenção da cultura nipo-brasileira, ainda que lhes faltem referências da cultura brasileira.

Esse poderia ser um motivo adicional para os governos japonês e brasileiro cuidarem com maior carinho essa grave questão social.

 

Cooperação para o desenvolvimento social e econômico brasileiro

 

Dentre os diversos legados da imigração japonesa no Brasil, podemos citar dois destaques: a assimilação da cultura nipo-brasileira pela sociedade brasileira e a profícua relação entre Brasil e Japão. Ambos criaram (e ainda criam) relevantes condições e oportunidades de desenvolvimento social e econômico no Brasil.

Não foram encontradas pesquisas a respeito deste assunto, mas podemos imaginar a quantidade de empregos diretos e indiretos gerados nas atividades agrícolas[21], restaurantes da gastronomia japonesa[22], academias de artes marciais japonesas[23], eventos relacionados à cultura nipo-brasileira, comércio de produtos japoneses, empresas e indústrias japonesas no Brasil[24] (incluem-se aqui  os setores automobilístico, metalúrgico, eletroeletrônico, construção, financeiro, têxtil, serviços  etc.). Trata-se apenas de uma lista exemplificativa, pois há inúmeros outros mercados ligados às influências nipo-brasileiras ou ao Japão.

Além da geração de empregos, presumimos também que os negócios gerados em todas essas áreas acarreta movimentação financeira muito expressiva na economia brasileira, seja pela comercialização e consumo de produtos e serviços, seja pela importação e exportação.

Durante a história de 110 anos da imigração japonesa, houve uma significativa influência do Japão no desenvolvimento industrial brasileiro. Muitas indústrias surgiram por meio de acordos de cooperação entre Brasil e Japão e outras foram fundadas por nikkeis. A criação da siderúrgica Usiminas, empresa que hoje tem valor de mercado de mais de R$10 bilhões[25], é um exemplo emblemático dessa parceria.

Em 2017, o valor da produção agrícola brasileira foi R$342,6 bilhões, sendo apenas a soja responsável por R$127,7 bilhões, fazendo com que o Brasil fosse o maior exportador do produto, e responsável por 43% do comércio internacional desse grão[26]. Conforme já mencionado neste trabalho, os imigrantes japoneses e as parcerias de cooperação técnica com o Japão tiveram destacada contribuição no desenvolvimento da agricultura brasileira.

Em 2006, outro marco significativo, agora no campo da Ciência e Tecnologia, foi a implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T), baseado no padrão japonês, considerado, na época, o sistema mais evoluído do mundo. Ao invés de adotar um sistema existente, o governo brasileiro optou por desenvolver um sistema próprio com a parceria de técnicos japoneses (OTAKE, 2007, p. 66).

Há também os acordos de cooperação técnica feitos por intermédio da JICA[27], dentre os quais podemos citar um projeto com a Polícia Militar de São Paulo para implantação de policiamento comunitário, inspirado no sistema koban[28], e um projeto com a SABESP para executar medidas de redução de vazamentos na rede de distribuição no Estado de São Paulo. São apenas dois exemplos dentre os inúmeros acordos realizados ou em andamento (FERRAGI, 2011, p. 61-62; JICA Representação Brasil – Notícias, 2018).

E, desde 2000, o Brasil e o Japão têm empreendido uma nova forma de cooperação que transcende o território brasileiro: são os acordos de cooperação triangular, através dos quais os dois países se juntam em prol do desenvolvimento de outros países. O foco desses acordos tem sido o continente africano, onde foram relatados dois projetos: o ProFORSA – Projeto de Fortalecimento do Sistema de Saúde em Angola e o ProSavana – Programa de Desenvolvimento da Agricultura das Savanas Tropicais em Moçambique (CAVALCANTE, 2015, p. 71-97).

Nesta parte do estudo, buscamos mostrar um panorama geral das diversas influências japonesas no desenvolvimento social e econômico brasileiro, apresentando amostras de resultados. E é curioso notar que outros países também estão se beneficiando dos laços de amizade entre Brasil e Japão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Neste estudo, tivemos a oportunidade de compreender os marcos históricos que levaram à combinação dos fatores convenientes no momento certo, e que culminaram com a chegada dos imigrantes japoneses em terras brasileiras. Hoje em dia, quando vemos a profícua parceria e amizade entre os países, sequer imaginamos que um dia eles se repeliram um ao outro.

A jornada desses 110 anos nem sempre foi harmônica: preconceito no Brasil; preconceito no Japão; e uma Guerra Mundial que colocou os países em lados opostos. Mas, não se pode negar que as consequências positivas dessa história mantiveram fortes os laços entre as nações. Consequências essas que foram inúmeras e tornaram desafiadora a delimitação do escopo deste estudo. Procuramos nos concentrar naqueles aspectos que reputamos estarem em evidência no contexto atual da comunidade nipo-brasileira. Admitimos que assuntos relevantes ficaram de fora, mas foi o preço pago para não sermos deveras superficiais nas análises.

Ressaltamos a adoção da cultura nipo-brasileira por não-descendentes de japoneses por meios das diversas japonesidades, que são verdadeiras portas de entrada para o grupo dos newkeis, uma nova marca que sugerimos para identificar aqueles que, genuinamente, querem contribuir para manter essa cultura viva no Brasil.

Destacamos três patrimônios valiosos da comunidade nipo-brasileira: sua reputação, suas associações e seus valores. É preciso continuar cuidando da reputação com zelo, ressignificar as associações, sem perder a sua essência de difusão da cultura nipo-brasileira, e explicitar os valores nipo-brasileiros para que possam ser compartilhados.

Essas ideias se aglutinam no seguinte ponto: aproveitar a onda crescente de newkeis e a adoção cada vez maior das japonesidades para revitalizar as associações. Utilizar a capilaridade das associações e a reputação da comunidade nipo-brasileira para compartilhar os valores nipo-brasileiros com a sociedade brasileira, visando gerar uma grande transformação social no Brasil.

Não podemos nos esquecer dos nikkeis que vivem no Japão, especialmente seus filhos. Se forem dadas a eles a devida atenção e suporte, podem triunfar no Japão e se tornarem importantes militantes em prol da causa da cultura nipo-brasileira.

Concluímos parafraseando Shinzo Abe: “É por nossos filhos e netos. É para construirmos e deixarmos um mundo pacífico e próspero para eles.” Decerto, foi com esse sentimento, aliado ao típico espírito guerreiro dos japoneses, que os imigrantes uniram forças para transpor as dificuldades e deixar uma indelével obra no Brasil. É preciso que esse legado continue nos inspirando a agir por mudanças positivas em nosso país.

 

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[1]HARADA, K. (Coord.). O nikkei no Brasil. 3a. ed. São Paulo: Cadaris Comunicação, 2013. 23-68 p.

[2]PRATA, D. (Rev.). Centenário: Contribuição da imigração japonesa para o Brasil moderno e multicultural. São Paulo: Paulo’s Comunicação e Artes Gráficas, 2010.

[3]É denominada de tutelada porque é amparada, desde o início, por meio de orientações, ajuda e gerência dos representantes do governo japonês. Há uma cadeia de relações montada a partir do topo da estrutura estatal japonesa até chegar aos imigrantes no Brasil. O governo japonês assumiu essa responsabilidade para garantir o êxito na fixação dos imigrantes (MAKINO, 2010, p. 48; SAKURAI, 2000).

[4]Empresa que assumiu a responsabilidade por todas as etapas do processo imigratório: seleção, embarque e desembarque de japoneses no país de destino (TAKEUCHI, 2008, p. 31).

[5] Subsidiária das Sociedades Cooperativas de Província para a Emigração Ultramarina.A BRATAC adquiriu grandes glebas em São Paulo e Paraná e repassou lotes de terra a imigrantes, mediante pagamento de uma soma inicial ainda no Japão (TAKEUCHI, 2008, p. 29).

[6] O artigo 121 da Constituição Federal de 1934 determinava que nenhuma corrente imigratória poderia exceder a cota de 2% sobre o número total de respectivos nacionais entrados no país nos últimos 50 anos (TAKEUCHI, 2008, p. 178).

[7]A imigração dirigida caracteriza-se pelo alto grau de especialização ou pela relativa raridade de determinado profissional no país hospedeiro.No caso da imigração japonesa, há um direcionamento para projetos de colonização previamente planejados em regiões como a Amazônia e o Nordeste (MAKINO, 2010, p. 61; SAKURAI, 2004, p. 12).

[8]Programa de Cooperação Nipo-Brasileira no Desenvolvimento de Agricultura de Cerrados. Graças ao Prodecer o Brasil está entre os maiores produtores e exportadores de soja do mundo  (LOURENÇÃO, 2015, p. 199).

[9] Atualmente, há muitos descendentes de japoneses que têm uma participação ínfima ou nula nas atividades da comunidade nikkei. Por outro lado, há muitos não-descendentes que participam ativamente de entidades e atividades da comunidade, passando a impressão de que têm mais afinidade com a cultura japonesa, ou que é “mais japonês”, do que os próprios descendentes.

[10]Não encontramos um trabalho acadêmico que embasasse com o devido esmero a nossa ideia, mas por experiência prática sabemos que os indivíduos se engajam socialmente em um ou mais grupos por mera questão de identificação, pertencimento e afeto.

[11] “O termo Nikkei tem significados múltiplos e bem variados, dependendo de cada situação, da área geográfica, e do ambiente. A palavra Nikkei também inclui pessoas de descendência racial mista que se identificam como Nikkei. Os japoneses nativos também usam o termo Nikkei para se referirem aos emigrantes e seus descendentes que retornaram ao Japão. Muitos destes Nikkei vivem em comunidades unidas e mantêm identidades culturais distintas daquela dos japoneses natos” (Discover Nikkei, 2018).

[12]Trata-se de um novo vocábulo de nossa autoria. Ao fazermos uma pesquisa no Google pelo termo “newkei”, não encontramos qualquer evidência de existência prévia deste termo.

[13] Embora, na prática, “nikkei” e “nipo-brasileiro”, sejam utilizados de forma similar, o termo “nikkei” remete a algo estritamente relacionado ao Japão, sem reconhecer influências externas. Além disso, “nikkei” é um termo muito abrangente e diz respeito a todos os descendentes japoneses fora do Japão, não limitando as fronteiras ao Brasil. Por outro lado, “nipo-brasileiro” reconhece a influência da sociedade brasileira, sem a perda do vínculo com as raízes japonesas, o que é mais adequado ao contexto que está sendo tratado.

[14]No Brasil, surgiram duas categorias: a nihonjinkai (associação de japoneses) e o kenjinkai (associação de província). Ambas cumprem funções cultural, esportiva, assistencial e recreativa.A diferença é que a primeira está ligada a cidades ou regiões em que está localizada; a segunda está ligada a províncias no Japão, inclusive com ligação direta com o governo, proporcionando intercâmbios culturais, acadêmicos e profissionais aos seus associados, ou recebendo japoneses intercambistas que vêm ao Brasil (HARADA, 2013, p. 237-238).

[15]Consulta ao Nikkeypedia, que é um site que se propôs a ser a enciclopédia da comunidade nikkei, disponibilizando dentre outras informações, um catálogo com dados de todas as associações e entidades da comunidade. Aparentemente não é atualizado há algum tempo, mas consideramos que as informações que lá estão disponíveis já foram suficientes para a finalidade deste trabalho (Associações, 2018).

[16] Sem o devido rigor científico, as pesquisas foram realizadas no Google pelos termos “lista associações”, acrescido da identificação dos grupos alemães (“teuto brasileiras”), espanhóis (“hispano brasileiras”), italianos (“ítalo brasileiras”) e portugueses (“luso brasileiras”). Não houve resultados relevantes para as pesquisas. Foram consultados também os sites dos respectivos consulados, onde não havia informações sobre associações. Para efeito de validação, a mesma pesquisa foi feita para “nipo brasileiras”, retornando dentre os resultados a página do Consulado Geral do Japão em São Paulo que contém um diretório de entidades e associações, e a página do Nikkeypedia com as informações das associações.

[17]No auge do movimento, nos anos de 2007 e 2008, foi registrada a presença de mais de 300 mil brasileiros descendentes de japoneses em terras nipônicas.Nessa época, houve uma crise financeira mundial que afetou a economia japonesa, provocando a volta de muitos dekasseguis para o Brasil, movimento que foi acentuado com a tragédia do tsunami em 2011(Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, 2018).

[18]A quantidade de brasileiros residentes caiu cerca de 45% no período de 2007 a 2015, quando chegou a 173.437 imigrantes, e retomou o crescimento em 2016. Dados de junho de 2018 registraram 191.362 imigrantes brasileiros residentes no Japão (Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, 2018).

[19] A legislação japonesa proibia a entrada de mão de obra estrangeira não qualificada, sendo os emigrantes japoneses a solução mais imediata para sanar a necessidade de mão-de-obra (HARADA, 2013, p. 187).

[20] Esse visto tem prazo de estada de um ou três anos, renováveis pelo mesmo período (HARADA, 2013, p. 188).

[21]Segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura, o agronegócio absorve cerca de um de cada três trabalhadores brasileiros (Panorama do agronegócio, 2017).

[22] Dados de 2003 apontam a existência de 600 restaurantes da gastronomia japonesa apenas em São Paulo. Após 15 anos, e o surgimento de novas variedades de pratos e estilos de serviço de influência japonesa (temaki, lámen, izakaya  etc.) podemos inferir que a quantidade no Brasil é bem maior (HARADA, 2013, p. 120).

[23]Estão credenciadas à Confederação Brasileira de Judô 1.617 academias (Onde treinar judô, 2018).

[24]Há 215 empresas no quadro de associados da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil (Associados da Câmara, 2018).

[25]Indicadores financeiros disponibilizados pela Usiminas (Indicadores financeiros, 2018).

[26] Dados da Confederação Nacional da Agricultura.Graças à cooperação do Japão no programa Prodecer, terras consideradas inférteis no cerrado brasileiro passaram a ser utilizadas no plantio de soja, aumentando sobremaneira a produtividade e mudando o patamar do Brasil no mercado (Panorama do agronegócio, 2017).

[27] Japan International Cooperation Agency (Agência de Cooperação Internacional do Japão) é o órgão do Governo Japonês responsável pela implementação da Assistência Oficial para o Desenvolvimento (ODA) que apóia o crescimento e a estabilidade socioeconômica dos países em desenvolvimento com o objetivo de contribuir para a paz e o desenvolvimento da sociedade internacional.

[28] Sistema koban é o modelo de policiamento comunitário utilizado no Japão

 

Alexandre Yamasaki Kawace é formado  em Engenharia  Elétrica  pela Unicamp. Auditor Fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado de São  Paulo. Membro da  JCI Brasil-Japão e da Associação Brasileira de Ex Bolsistas do Gaimusho.

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