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O império da burrice

Kiyoshi Harada | 08/12/2014

Palavras-chaves: burrice, dúvidas, ignorância, personalidade

Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência. Ruy Barbosa

Na sociedade atual, como na antiga, há o predomínio da burrice alimentada pela ignorância que vem sendo cultivada e conservada, cuidadosa e calculadamente desde o Brasil Império. Mas, o que é a burrice? É igual a ignorância? Na maioria das vezes ambas andam juntas, porém, elas diferem uma da outra.

A ignorância significa carência de conhecimento dos fatos e, consequentemente, das opções. O ignorante não consegue ver a realidade do dia a dia com os olhos da mente. Falta-lhe o conhecimento básico, e por isso ele é incapaz de processar o que ouve, tampouco é capaz de compreender o conteúdo intrínseco daquilo que vê ou toca. A sua cura está no aprendizado, à medida da vontade política de cada pessoa de se libertar dos grilhões.

A burrice é forma de deformação da personalidade. Não é incompatível com a cultura e a erudição. Deparamos no dia a dia com pessoas cultas, mas que falam uma besteira atrás da outra. Por isso, Stanislaw Ponte Preta cunhou a célebre frase: festival de besteira que assola o País. A frase reflete a pura realidade que parece imutável entre nós: diuturnamente convivemos com falas, discursos, palestras, debates e escritos que refletem o pensamento de Stabnislaw.

O burro sempre acha que ele sabe de tudo. É autossuficiente em tudo. Ele nunca tem dúvida de coisa alguma, por isso ele se fecha em si mesmo; tem orelhas, grandes até, mas só capta a sua própria voz que soa como melodia que o deixa feliz e satisfeito. Ele é resoluto, é ousado e tem uma fé inabalável em tudo que ele faz ou desfaz e vive muito bem, sempre alegre e sorridente na certeza de que ele é imune a erros. O burro é feliz, ao contrário do inteligente que sofre assaltado por constantes dúvidas e incertezas. Quem tem o dom da jeux de Voiture burrice é operoso, sobretudo, na arte de cultivar e assegurar a perpetuidade da ignorância, que é o seu tesouro mais precioso. Ao contrário da ignorância, a burrice é eterna; não há remédios; não há cura. Esse conceito é mais ou menos universal. Cada povo expressa o sentido da burrice a sua maneira. Só para exemplificar, o japonês costuma dizer “baca wa shinanakiya naoranai”, ou em vernáculo, “a burrice só se cura com a morte”. É a pura verdade!

A burrice vem ganhando posição de destaque na sociedade atual. Os burros, ao contrário dos ignorantes, são mais espertos do que as velhas raposas. Têm o incrível poder de manipulação e convencimento da população ignorante, cujo contingente vem sendo ampliado pelos detentores de poder, na verdade, burros. A burrice quando aliada à ignorância torna-se uma força praticamente invencível.Como vencer a burrice? Derrotando a ignorância, seria a resposta lógica. Mas, como fazer isso? A lapidar frase de Rui bem demonstra a dificuldade de deter o crescimento da burrice que entre nós já tem status de uma ciência, passados mais de um século da fala transcrita no preâmbulo. Os ventos democráticos que sopram na nova República não foram capazes de varrer a ignorância arraigada na velha República. A burrice tomou conta do País, espalhando-se para todas as áreas do conhecimento.

Some-se à multidão de ignorantes o contingente de analfabetos funcionais que compõe 68% da nossa população e teremos a cegueira generalizada de que falou o Ministro Eros Grau, fruto da ignorância cultivada pelos burros que impede de ver o que está acontecendo e muito menos de prever o porvir. A fala do Ministro aponta para um futuro nada promissor do País por conta das bases cancerígenas colocadas ao longo dos últimos 12 anos. Confiram acessando o site:

https://www.youtube.com/embed/C6c6uVNKHzs?rel=0

SP, 3-11-14.

  • Jurista, escritor, acadêmico e Presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social.

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